Mapa global indicando níveis de liberdade de imprensa. Mapa global indicando níveis de liberdade de imprensa.

Liberdade de imprensa atinge nível crítico com autoritarismo

Liberdade de imprensa enfrenta declínio em 75% dos países. A capacidade de jornalistas trabalharem com segurança e independência enfrenta ameaças…

A capacidade de jornalistas trabalharem com segurança e independência enfrenta ameaças globais, segundo o Índice Mundial de Liberdade de Imprensa de 2026, elaborado pela organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF). O levantamento classifica o ambiente de trabalho da mídia como problemático ou pior em cerca de três quartos dos 180 países avaliados.

A RSF define a liberdade de imprensa como a habilidade de profissionais selecionarem, produzirem e disseminarem notícias de interesse público sem interferências políticas, econômicas ou legais, e longe de ameaças à integridade física. Atualmente, as condições para a mídia são consideradas de difíceis a muito sérias em mais da metade das nações monitoradas, um contraste acentuado em relação a 2013, quando esse cenário abrangia menos de um terço dos países.

Polônia e Eslováquia seguem trajetórias opostas

O cenário europeu ilustra divisões regionais marcantes, como o caso da Polônia e da Eslováquia. Na Polônia, a liberdade de imprensa avançou após a saída do partido Lei e Justiça (PiS) do poder no final de 2023, com o novo governo reduzindo ataques verbais e ações judiciais contra veículos de comunicação. Em contrapartida, a Eslováquia vive um retrocesso desde que Robert Fico iniciou seu quarto mandato como primeiro-ministro em 2023.

“Ele tem uma longa carreira atrás de si, e sempre foi sua narrativa que jornalistas são seus inimigos”, afirmou Lukas Diko, editor-chefe do Centro Investigativo de Jan Kuciak (ICJK). A organização leva o nome de um jornalista assassinado durante o terceiro mandato de Fico, crime que revelou conexões entre o Crime Organizado e o partido governista. Segundo Diko, a hostilidade oficial tem desencorajado novos profissionais: “Não muitos jovens querem se tornar jornalistas mais. O assassinato de Kuciak é ainda algo que lhes diz para não fazerem isso — mas eles também não querem ser atacados verbalmente diariamente”.

Estratégias políticas de ataque à imprensa

Na Argentina, o presidente Javier Milei tem adotado campanhas de difamação contra a imprensa como parte de sua estratégia política. Fernando Stanich, presidente do fórum argentino FOPEA, destaca a gravidade da postura: “Quando Milei insulta um jornalista, ele não está fazendo isso como Milei, o economista, ou Milei, um cidadão comum. Ele está fazendo isso como o principal representante do Estado argentino”.

O fenômeno de líderes que utilizam ataques verbais como ferramenta política também é observado nos Estados Unidos e em El Salvador. Paralelamente, conflitos armados permanecem como a causa primária do declínio da liberdade de imprensa em locais como Iraque, Sudão e Iêmen. Desde o início da guerra em Gaza em outubro de 2023, mais de 220 jornalistas foram mortos pelo exército israelense, sendo pelo menos 70 deles enquanto exerciam sua profissão.

Redes de apoio e a resistência social

A professora Vera Slavtcheva-Petkova, da Universidade de Liverpool, aponta que a intimidação por estruturas políticas é apenas uma das ameaças. Fatores sociais e econômicos, como o preconceito de gênero e a precariedade do mercado de trabalho, também restringem a liberdade de atuação. A especialista reforça a importância de redes de colaboração: “Saber que existe alguém com quem você pode contar para apoio é muito importante. Quando jornalistas não têm isso, quando não sabem a quem recorrer para pedir ajuda… então eles sentem que o que estão vivenciando pode até ser culpa deles”.

Em países como a África do Sul, a existência de uma sociedade civil forte tem ajudado a preservar o status da imprensa. Glenda Daniels, secretária-geral do Fórum Nacional de Editores da África do Sul (SANEF), destaca o papel do ativismo: “SANEF é alto e barulhento. Faz diferença ter uma abordagem forte da sociedade civil, advocacia e ativismo”. A necessidade de tais redes torna-se urgente, visto que apenas 17 países melhoraram seus índices de liberdade de imprensa desde 2013, enquanto 163 registraram piora.

Fonte: Dw