A Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) enfrenta um momento de instabilidade após a decisão dos Emirados Árabes Unidos de abandonar o cartel. O grupo, que opera um sistema de cotas para limitar a produção global, perde um membro estratégico que busca expandir sua capacidade produtiva sem as restrições impostas pela aliança.
Há anos, os Emirados Árabes Unidos mantêm divergências com a Arábia Saudita, o membro mais influente da OPEP, sobre os limites de extração. O país investiu pesadamente para ampliar sua indústria petrolífera e aumentar sua participação no mercado, mas as cotas do grupo limitaram repetidamente esse crescimento.
“O mundo precisa de mais energia. O mundo precisa de mais recursos, e os Emirados Árabes Unidos queriam ficar livres de qualquer grupo”, afirmou o ministro de Energia, Suhail Al Mazrouei, ao New York Times na última terça-feira.
Capacidade de produção desafia o controle da OPEP
A saída dos Emirados Árabes Unidos, prevista para 1º de maio, retira do cartel um dos poucos membros com capacidade ociosa significativa. Atualmente, o país produz entre 3,2 e 3,6 milhões de barris por dia, mas detém uma capacidade de reserva de quase 4,8 milhões de barris diários, com planos de elevar a produção para 5 milhões até o próximo ano.
“Perder um membro com 4,8 milhões de barris por dia de capacidade, e a ambição de produzir mais, tira uma ferramenta real das mãos do grupo”, disse Jorge Leon, chefe de análise geopolítica na consultoria Rystad Energy. Para especialistas, a decisão reflete um cálculo de produtores que preferem atuar de forma independente em um cenário onde a demanda se aproxima do pico.
A saída enfraquece a capacidade da Arábia Saudita de estabilizar os preços através de cortes próprios. O reino saudita, que precisa de preços próximos a US$ 90 por barril para financiar projetos e a visão de diversificação econômica, terá agora mais dificuldade em impor disciplina ao grupo.
Tensões no Estreito de Ormuz ofuscam impacto imediato
No curto prazo, a saída dos Emirados Árabes Unidos deve ter impacto limitado nos preços globais, uma vez que o mercado está concentrado nas tensões no Estreito de Ormuz. O Brent chegou a atingir US$ 126 por barril recentemente devido a preocupações com o fornecimento e o impasse nas negociações entre Estados Unidos e Irã.
“No curto prazo, não espero que isso tenha grandes impactos porque o que está acontecendo no Estreito de Ormuz domina todo o cenário global de petróleo de uma forma que torna esta notícia da OPEP algo como uma questão menor”, explicou Jeff Colgan, diretor do Climate Solutions Lab da Brown University.
A longo prazo, a saída dos Emirados Árabes Unidos pode sinalizar uma tendência de preços mais voláteis. O movimento também expõe as tensões internas em uma organização cuja influência global caiu de mais da metade da oferta mundial para menos de um terço nas últimas décadas.
Coesão da OPEP entra em risco com desmembramento
A decisão dos Emirados Árabes Unidos soma-se a uma série de saídas anteriores, como a do Catar em 2019, além de Angola, Equador e Indonésia. O sistema de cotas da OPEP já vinha sendo testado por descumprimentos recorrentes de membros como Iraque e Nigéria, além da conformidade inconsistente da Rússia na aliança OPEP+.
“É possível que possamos ver toda a organização desmoronar”, avaliou Colgan, embora ressalte que a Arábia Saudita deve se esforçar para manter o grupo como uma âncora central. A saída destaca a crescente frustração com a rigidez do sistema de cotas e a percepção de domínio saudita sobre as decisões estratégicas do setor de energia.
Fonte: Dw