A 25 metros abaixo do solo, na Liberty Street, em Nova York, o Federal Reserve (Fed) mantém o maior depósito de ouro do mundo. O cofre abriga mais de meio milhão de barras, totalizando cerca de 6,3 mil toneladas, com valor superior a US$ 1 trilhão — montante que equivale a aproximadamente 4% do Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos.

A câmara-forte, protegida por um cilindro de aço de 90 toneladas, desempenha um papel crítico na estabilidade do sistema financeiro global. Muitos países utilizam o local para armazenar suas reservas, utilizando o metal como ativo de proteção para respaldar moedas nacionais. O atual cenário da economia dos EUA coloca em foco a segurança desses ativos soberanos.
O ouro como ativo estratégico em tempos de volatilidade
O metal é visto como um porto seguro durante crises de inflação e instabilidade geopolítica. Por isso, compõe parcela significativa das reservas de bancos centrais, especialmente na Europa.
“É um dos ativos mais importantes deles porque, diante de eventos geopolíticos adversos, permite atuar como emprestadores de última instância para bancos e empresas e intervir nos mercados cambiais”, afirmou Barry Eichengreen, especialista em sistema monetário internacional da Universidade da Califórnia em Berkeley.
Durante décadas, o Fed foi considerado o guardião mais confiável para nações europeias que temiam ameaças externas. Contudo, o retorno de Donald Trump ao poder e divergências sobre tarifas comerciais e política externa geraram questionamentos sobre a conveniência de manter esses estoques no exterior.
Alemanha debate independência das reservas
Na Alemanha, detentora das segundas maiores reservas mundiais, vozes defendem a repatriação imediata. O economista Emanuel Mönch, ex-pesquisador do Bundesbank, afirmou: “Dada a atual situação geopolítica, parece arriscado manter tanto ouro nos Estados Unidos”.
A preocupação é compartilhada por outros setores. Michael Jäger, presidente da Associação Alemã de Contribuintes, reforçou: “Trump é imprevisível e é capaz de tudo para gerar receitas. Por isso, nosso ouro já não está seguro no cofre do Fed”. Por outro lado, o presidente do Bundesbank, Joachim Nagel, tentou minimizar os receios em outubro passado: “Não há motivo para preocupação”.
Histórico de repatriação e desgaste nas relações
A Holanda iniciou um movimento de retirada em 2014, reduzindo sua parcela depositada no Fed de 51% para 31%. Historicamente, o movimento remete à década de 1960, quando o presidente Charles de Gaulle decidiu trazer o ouro da França de volta por temer a desvalorização do dólar. Em 1971, o fim da conversibilidade do dólar em ouro validou a cautela francesa.
Atualmente, especialistas como Barry Eichengreen alertam que o clima político atual agrava a desconfiança. “Este governo não acredita que os Estados Unidos devam prestar serviços gratuitamente — e tudo o que alimenta dúvidas entre aliados sobre a segurança de seus depósitos no país corrói ainda mais essa boa vontade”, concluiu Eichengreen.
Fonte: G1