A possível perda do apoio dos Estados Unidos representa o principal risco estratégico para Israel no cenário internacional. A avaliação é de Vinícius Rodrigues Vieira, professor de Economia da FAAP e de Relações Internacionais da FGV, em entrevista ao WW Especial.
Ao analisar os desafios enfrentados pelo Estado israelense, Vieira, que também leciona no IDP, afirmou que questões internas, como as mudanças demográficas em curso no país, são relevantes, mas não suficientes, isoladamente, para ameaçar sua continuidade.
“O grande risco está do outro lado do Atlântico Norte”, afirmou. Segundo ele, uma eventual mudança no ambiente político americano pode reduzir significativamente o apoio histórico dado a Israel por Washington.
Vieira destacou que pesquisas apontam uma crescente resistência entre eleitores democratas ao apoio irrestrito dos Estados Unidos ao governo israelense. “Até três quartos dos eleitores democratas são contra, não vou dizer absolutamente, mas têm, no mínimo, um apoio crítico em relação aos Estados Unidos continuarem a apoiar Israel”, disse.
Transformações na base republicana e o movimento Maga
O professor também chamou atenção para transformações dentro da base republicana ligada ao Maga, movimento político fundado por Donald Trump. Segundo ele, há um componente identitário relevante nesse grupo, associado à ideia de retorno a uma América definida por valores brancos, anglo-saxões e protestantes.
“Tem todo esse debate sobre os judeus serem considerados brancos ou não no contexto americano. Até 1945, eles eram super excluídos das universidades, não podiam entrar nas instituições de maior prestígio e estavam totalmente isolados do mainstream americano”, explicou.
Desafios políticos para a relação entre Washington e Tel Aviv
Na avaliação do especialista, tanto democratas quanto republicanos podem, por razões distintas, representar desafios para a relação entre Washington e Tel Aviv no futuro. A instabilidade política pode afetar até mesmo a liberação de ativos e acordos estratégicos.
“Caso os democratas voltem ao poder, haverá essa oposição por outro caminho. A ideia de que Israel não é mais um aliado confiável porque quer, em primeiro lugar, satisfazer interesses extremamente ideológicos e religiosos”, destacou.
Ao mesmo tempo, ele argumentou que setores do movimento conservador americano também podem rever sua posição em relação a Israel a partir de uma agenda política cada vez mais voltada para questões identitárias internas.
“O risco é de ambos os lados. Tanto o caminho republicano quanto o caminho democrata são pouco promissores para Israel, caso o país continue nessa toada”, avaliou.
Crescimento da população ortodoxa em Israel
Por fim, Vieira ressaltou que as mudanças demográficas em Israel ampliam os incentivos para a manutenção da atual trajetória política do país. Segundo ele, a população ortodoxa israelense cresceu de forma acelerada nas últimas décadas.
“Hoje a população ortodoxa seria de 14% a 15%, sendo que, no começo do século, era 7%. Ou seja, duplicou em 25 anos e continua aumentando”, concluiu.
Fonte: Cnnbrasil