O ritual parece ter saído de 2006: conectar um fone com fio, girar a roda do aparelho e escolher um álbum baixado manualmente. Mas a cena acontece em 2026, com jovens que estão trocando o celular por iPods. O MP3 player lançado pela Apple há mais de duas décadas voltou à rotina da Geração Z, não apenas pela nostalgia, mas pela ausência de notificações, algoritmos e feeds infinitos.

Jovens que voltaram a usar o iPod no dia a dia relatam que o celular passou a atrapalhar demais devido ao fluxo constante de interrupções. O dispositivo, focado exclusivamente em reprodução de áudio, oferece uma experiência de uso mais controlada e menos invasiva para momentos de estudo, treinos e deslocamentos.
Vendas de iPods crescem até 47% em plataformas de usados
“Até hoje existe uma comunidade enorme de pessoas que restauram iPods antigos com bateria nova e mais armazenamento, seja para manter o produto vivo como lembrança ou até mesmo para usá-lo no dia a dia”, conta o especialista em Apple Filipe Esposito, que acompanha a empresa há 17 anos.
A procura pelo dispositivo reflete nos números de plataformas de revenda. O site Enjoei informou que o valor total de iPods vendidos no primeiro trimestre de 2026 foi **47% maior** do que no mesmo período de 2025. Já a OLX registrou um crescimento de 22% nas buscas pelo aparelho entre janeiro e abril deste ano, na comparação com o mesmo período do ano passado.
Usuários buscam paz ao ouvir música sem interrupções
Emanuelle Assunção, Lisandra Reis e Cláudio Wollace integram o grupo de usuários que buscam fugir da hiperconectividade. “Eu sentia que o celular acabava me atrapalhando um pouco. Às vezes, eu saía para correr na rua e acabava parando porque chegava alguma notificação e eu ficava curiosa para ver. Óbvio que eu também adoro a vibe nostálgica que ele passa, mas é muito mais para ouvir música em paz”, conta Lisandra.
Para Cláudio, o processo de transferir músicas manualmente é “revigorante”. Ele utiliza um iPod Nano comprado em 2025 e destaca a qualidade sonora. “Mesmo assinando serviços de streaming, como o Spotify, eu ainda prefiro o iPod. Sinto que a qualidade sonora é até melhor”, afirma. Emanuelle, que utiliza um iPod Touch, reforça o uso durante atividades físicas: “Hoje eu uso ele durante os treinos de musculação, às vezes quando estou lendo e também nos deslocamentos de carro por aplicativo”, diz.
Simplicidade do iTunes opõe-se ao ciclo infinito de algoritmos
O especialista Filipe Esposito destaca que a combinação entre iTunes e iPod foi fundamental para o sucesso do aparelho. “Pela primeira vez, os usuários podiam comprar músicas separadamente por US$ 0,99 (cerca de R$ 1,80 na época). Todo o processo era extremamente rápido e fácil, e as músicas podiam ser transferidas em segundos para o iPod”, afirma.
Para Angelica Mari, especialista em cyberpsicologia, o fenômeno reflete uma recusa simbólica da hiperconectividade. “No caso dos iPods, baixar as músicas e atualizar manualmente as playlists vão na contramão da conveniência a que fomos acostumados, mas também devolvem um certo nível de autonomia. Hoje, quando uma playlist termina, as plataformas logo sugerem uma sequência parecida para manter o usuário em um ciclo infinito”, explica.
A busca por essa simplicidade, contudo, tem se tornado um nicho mais caro. Dispositivos como o iPod Classic, que se tornaram itens de desejo, podem custar mais de **R$ 1 mil** em sites de revenda, evidenciando como a Tecnologia de décadas passadas se valorizou ao oferecer um refúgio contra a distração digital.
Fonte: G1