A capacidade de jornalistas trabalharem com segurança e independência enfrenta ameaças globais, segundo o Índice Mundial de Liberdade de Imprensa de 2026, elaborado pela organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF). O levantamento classifica o ambiente de trabalho da mídia como problemático ou pior em cerca de três quartos dos 180 países avaliados.
A RSF define a liberdade de imprensa como a habilidade de profissionais selecionarem, produzirem e disseminarem notícias de interesse público sem interferências políticas, econômicas ou legais, e longe de ameaças à integridade física. Atualmente, as condições para a mídia são consideradas de difíceis a muito sérias em mais da metade das nações monitoradas, um contraste acentuado em relação a 2013, quando esse cenário abrangia menos de um terço dos países.
Polônia e Eslováquia seguem trajetórias opostas
O cenário europeu ilustra divisões regionais marcantes, como o caso da Polônia e da Eslováquia. Na Polônia, a liberdade de imprensa avançou após a saída do partido Lei e Justiça (PiS) do poder no final de 2023, com o novo governo reduzindo ataques verbais e ações judiciais contra veículos de comunicação. Em contrapartida, a Eslováquia vive um retrocesso desde que Robert Fico iniciou seu quarto mandato como primeiro-ministro em 2023.
“Ele tem uma longa carreira atrás de si, e sempre foi sua narrativa que jornalistas são seus inimigos”, afirmou Lukas Diko, editor-chefe do Centro Investigativo de Jan Kuciak (ICJK). A organização leva o nome de um jornalista assassinado durante o terceiro mandato de Fico, crime que revelou conexões entre o Crime Organizado e o partido governista. Segundo Diko, a hostilidade oficial tem desencorajado novos profissionais: “Não muitos jovens querem se tornar jornalistas mais. O assassinato de Kuciak é ainda algo que lhes diz para não fazerem isso — mas eles também não querem ser atacados verbalmente diariamente”.
Estratégias políticas de ataque à imprensa
Na Argentina, o presidente Javier Milei tem adotado campanhas de difamação contra a imprensa como parte de sua estratégia política. Fernando Stanich, presidente do fórum argentino FOPEA, destaca a gravidade da postura: “Quando Milei insulta um jornalista, ele não está fazendo isso como Milei, o economista, ou Milei, um cidadão comum. Ele está fazendo isso como o principal representante do Estado argentino”.
O fenômeno de líderes que utilizam ataques verbais como ferramenta política também é observado nos Estados Unidos e em El Salvador. Paralelamente, conflitos armados permanecem como a causa primária do declínio da liberdade de imprensa em locais como Iraque, Sudão e Iêmen. Desde o início da guerra em Gaza em outubro de 2023, mais de 220 jornalistas foram mortos pelo exército israelense, sendo pelo menos 70 deles enquanto exerciam sua profissão.
Redes de apoio e a resistência social
A professora Vera Slavtcheva-Petkova, da Universidade de Liverpool, aponta que a intimidação por estruturas políticas é apenas uma das ameaças. Fatores sociais e econômicos, como o preconceito de gênero e a precariedade do mercado de trabalho, também restringem a liberdade de atuação. A especialista reforça a importância de redes de colaboração: “Saber que existe alguém com quem você pode contar para apoio é muito importante. Quando jornalistas não têm isso, quando não sabem a quem recorrer para pedir ajuda… então eles sentem que o que estão vivenciando pode até ser culpa deles”.
Em países como a África do Sul, a existência de uma sociedade civil forte tem ajudado a preservar o status da imprensa. Glenda Daniels, secretária-geral do Fórum Nacional de Editores da África do Sul (SANEF), destaca o papel do ativismo: “SANEF é alto e barulhento. Faz diferença ter uma abordagem forte da sociedade civil, advocacia e ativismo”. A necessidade de tais redes torna-se urgente, visto que apenas 17 países melhoraram seus índices de liberdade de imprensa desde 2013, enquanto 163 registraram piora.
Fonte: Dw