Em ambientes escolares, a simples menção ao feminismo frequentemente gera tensões e bloqueios imediatos. Muitos adolescentes, especialmente os rapazes, percebem o tema como algo distante ou até mesmo como um ataque direto, enquanto outros demonstram ceticismo ou exaustão. O desafio central para educadores não reside apenas no conteúdo, mas na metodologia: como abordar o feminismo sem adotar um tom moralizante que crie barreiras, transformando a conversa em uma ferramenta útil para a compreensão do mundo.
A ativista Pamela Palenciano, com mais de duas décadas de atuação, percorre institutos e auditórios na Espanha discutindo desigualdades e relações. Seu novo livro, No me des la chapa. Feminismo para adolescentes, compila essa experiência através de diálogos que atravessam diferentes faixas etárias. A obra não se apresenta como um manual rígido, mas como uma proposta baseada na escuta ativa e no questionamento constante.
O feminismo como ferramenta de diálogo
“Porque agora mesmo faz falta muito diálogo. E o feminismo o que faz é abrir perguntas para poder dialogar e questionar o que damos por feito”, afirma Palenciano. Segundo a autora, vivemos em um contexto onde muitas normas são aceitas sem reflexão, e o feminismo propõe justamente investigar a origem dessas estruturas e se elas podem ser transformadas.
A resistência masculina, contudo, é um ponto crítico. “A muitos rapazes chega como se fosse um ataque, como se estivessem dizendo que eles são o problema, e desde aí é muito difícil que escutem”, explica. Ela ressalta que, quando os privilégios são questionados, muitos jovens sentem que seus direitos estão sendo colocados em xeque, o que gera uma defesa imediata.
A falha na comunicação dos adultos
Palenciano critica a postura de muitos adultos ao abordar o tema com jovens. “Se entras desde o sermão, desde a imposição e desde o ‘isto é assim’, o mais provável é que se fechem”, pontua. A ativista defende que o erro comum é tratar os adolescentes com reganho, esquecendo que os adultos são os responsáveis por moldar o ambiente em que eles crescem.
A autora destaca que a conexão com o público jovem sofreu um distanciamento após 2018. “Por essa fenda se colaram todos os ‘nãos’ dos rapazes dizendo ‘a mim esta tia que não me esquente a cabeça, que sinto que o tempo todo me dizem que ser homem é ruim'”, relata. Para ela, o feminismo deve ser explicado como uma forma de equidade que beneficia a todos, combatendo desigualdades de classe, raça e idade, e não como uma guerra de gêneros.
Gestão de relacionamentos e o amor romântico
O livro também aborda temas como ciúmes e controle nas relações adolescentes. Palenciano alerta que, embora o amor romântico tenha se adaptado a novos códigos digitais, as dinâmicas de poder permanecem. “Por exemplo, esse controle constante de onde estás, o que fazes ou com quem falas, ou a sensação de que se não respondes a uma mensagem a outra pessoa vai se zangar”, exemplifica.
A ativista enfatiza que a educação sobre esses sinais de alerta chega tardiamente. “São coisas muito concretas que não estamos ensinando a identificar. E por isso chegamos tarde: porque começamos a falar de tudo isto quando já há um problema, em vez de ajudá-los antes a reconhecer essas sinais e a entender o que é uma relação saudável”, conclui.

Fonte: Elpais