Um helicóptero transportando um integrante do PCC aterrissou no heliponto do Palácio dos Bandeirantes, em 10 de março de 2022. O criminoso utilizou contatos políticos para conseguir, em apenas seis horas, a autorização da Casa Militar do Governo de São Paulo para o pouso. O objetivo da aeronave era levar o passageiro ao estádio do Morumbi, onde ele assistiu a uma partida de futebol entre São Paulo e Palmeiras.
O episódio consta em documentos da Operação Contaminatio, deflagrada pela Polícia Civil nesta segunda-feira, 27. A ofensiva investiga a infiltração de faccionados do PCC em administrações públicas municipais e o suposto financiamento de candidatos nas eleições de 2024. A ação foi conduzida pela Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes de Mogi das Cruzes.
Polícia aponta risco institucional em relatório de investigação
Segundo a Polícia Civil, o caso ilustra o alcance da infiltração do crime organizado dentro do poder público. O relatório, assinado pelo delegado Fabrício Intelizano, destaca o risco gerado às instituições estatais pelo uso da estrutura governamental por criminosos. O ex-governador João Doria, que ocupava o cargo na data do ocorrido, afirmou que não possui controle sobre o heliponto.
“Eu não controlo o heliponto. Nem precisa de autorização do governador para fazer uso do heliponto no Palácio dos Bandeirantes. Quem tem que se manifestar, quem tem que responder sobre essa circunstância é a Casa Militar do Governo de São Paulo, não é o governador, nem Tarcísio, nem João Doria, nem Rodrigo, nem Alckmin. Imagina. Nós não controlamos quem pousa e quem decola do heliponto do Palácio”, declarou Doria.
Empresário utilizou contatos para acessar o Palácio
O ocupante da aeronave era o empresário João Gabriel de Melo Yamawaki, que foi preso em 2026 por envolvimento com tráfico de drogas. As investigações indicam que ele contatou o ex-vereador de Santo André, Thiago Rocha de Paula, para viabilizar o acesso à pista de pouso. Mensagens apreendidas pela polícia sugerem que um assessor da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Regional teria autorizado o uso do heliponto.
Marco Vinholi, ex-secretário de Desenvolvimento Regional, negou qualquer ligação com os investigados no caso. “Não tem nenhuma ligação com os investigados na operação da Polícia Civil deflagrada na manhã desta segunda-feira e desconhece totalmente Thiago Rocha, assim como o episódio citado”, afirmou. Vinholi ressaltou ainda que, em março de 2022, já não exercia a função de secretário.
Justiça bloqueia R$ 513,69 milhões em bens de investigados
A Operação Contaminatio funciona como um desdobramento da Operação Decurio, focada no combate à infiltração do crime organizado na política. A polícia detectou a intenção do grupo de inserir uma fintech, o 4TBank, na gestão de receitas municipais para realizar operações de lavagem de dinheiro. Em decorrência das apurações, a Justiça decretou o bloqueio de R$ 513,69 milhões em bens dos investigados.
A Secretaria de Segurança Pública informou que o caso ocorreu sem qualquer relação com a atual gestão e que as autorizações de pouso seguem critérios estabelecidos pela Agência Nacional de Aviação Civil. Além de prisões em diversos estados, a corporação investiga tentativas de fraude em licitações, nas quais o grupo teria obtido acesso antecipado a minutas de decretos municipais.
Fonte: Estadão