A popularização dos óculos inteligentes tem impulsionado um novo tipo de conteúdo nas redes sociais: pegadinhas gravadas secretamente com pessoas desconhecidas. Os vídeos, porém, levantam preocupações sobre privacidade e exposição de pessoas sem consentimento.




Os óculos inteligentes são modelos com lentes de grau ou de sol que trazem câmeras, microfones e alto-falantes embutidos. Eles permitem gravar vídeos, tirar fotos e atender ligações sem precisar tirar o celular do bolso. Alguns incluem IA para traduzir textos em tempo real, responder dúvidas sobre o que o usuário está vendo e publicar conteúdo diretamente nas redes sociais.
Dispositivos como o Ray-Ban Meta, lançado no Brasil em setembro de 2025, têm uma luz que indica quando estão gravando. Mas alguns usuários danificam esse LED para que as pessoas não percebam que estão sendo filmadas.
Pagamentos ocultos e reações gravadas
Há diferentes estilos de pegadinhas com óculos inteligentes nas redes sociais. Em uma das mais populares, a pessoa esconde um cartão de crédito ou débito com pagamento por aproximação dentro da embalagem de algum produto. Ao passar no caixa do supermercado, ela aproxima o produto da maquininha e o pagamento é aprovado. Usando os óculos com câmera, o autor grava a reação de surpresa do funcionário ao ver a compra ser paga sem um cartão visível.
Em parte dos vídeos, o criador revela no fim que se trata de uma brincadeira e pede autorização para publicar nas redes. Em outros casos, não fica claro se houve consentimento das pessoas filmadas antes da postagem. A advogada Patrícia Peck explica que ser filmado em público sem autorização não implica automaticamente crime ou indenização, mas o risco legal aumenta quando não há aviso claro.
“Por isso, mesmo que a gravação busque uma reação espontânea, é necessário obter consentimento específico antes da publicação”, diz Patrícia Peck.
Riscos de privacidade e medidas de segurança
Em nota, a Meta reforçou que há um alerta luminoso que indica quando os dispositivos estão gravando e que os usuários são “responsáveis por cumprir todas as leis aplicáveis e por usar os óculos de forma segura e respeitosa”. A empresa não comentou os casos em que o LED do produto é danificado. A empresa afirma que os óculos não capturam imagens quando o LED está tapado, embora testes tenham mostrado que o dispositivo pode continuar operando em condições específicas.
Para especialistas, as discussões e regras sobre o uso de óculos inteligentes ainda estão em desenvolvimento. Mesmo assim, algumas empresas já começaram a rever a presença desses dispositivos em seus espaços. Em 2025, a MSC Cruzeiros passou a proibir o uso do equipamento em áreas comuns dos navios, como piscinas, para proteger a privacidade e a Segurança de hóspedes e tripulantes.
Táticas para burlar o aviso de gravação
Entre as formas de burlar o aviso de gravação, existem adaptadores à venda que cobrem a luz indicativa e até técnicas na internet que ensinam como desativar esse alerta de privacidade, conta Ronaldo Lemos, advogado e diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS Rio). Isso ganha relevância porque o uso desses dispositivos é mais discreto do que o de um celular.
“Se o aparelho vem de fábrica com uma salvaguarda que avisa sobre a gravação, quem hackeia o aparelho para desabilitar esse aviso já adota uma conduta fraudulenta para ocultar a gravação. Isso traz uma responsabilidade jurídica adicional”, completa o especialista.
Juan Eugenio, criador de conteúdo, admitiu ter danificado o LED dos próprios óculos para registrar pegadinhas sem que a vítima perceba. Embora o produto da Meta seja o mais comum no Brasil, com preços a partir de R$ 3.299, outros modelos de marcas desconhecidas também são encontrados na internet por valores mais baixos e com funções semelhantes, muitas vezes sem as mesmas salvaguardas de privacidade.
Direitos de quem é filmado sem autorização
Quem é alvo de pegadinhas sem consentimento está amparado por diferentes mecanismos legais. Caso não haja autorização, o primeiro passo é reunir provas do ocorrido, como vídeos e links. O TikTok e o Instagram possuem canais de denúncia para casos de violação de privacidade e de direitos de imagem. Outro caminho é enviar uma notificação extrajudicial e, se necessário, recorrer à justiça com um pedido de indenização por danos morais e materiais.
O tema tem respaldo na Constituição, que garante a proteção à intimidade, à vida privada, à honra e à imagem. O Superior Tribunal de Justiça tem a Súmula 403, que estabelece que o uso não autorizado de imagem para fins comerciais gera dano moral presumido. A publicação de vídeos virais, que geram engajamento e podem ser monetizados, pode se enquadrar nessa hipótese. Enquanto isso, o mercado busca formas de integrar a IA em pequenos negócios sem comprometer a ética e a privacidade dos consumidores.
Fonte: G1