A forte dependência brasileira de fertilizantes importados esteve entre os principais temas debatidos no painel “Do campo à geopolítica: o agro no centro das decisões globais”, realizado durante o evento Eloos, nesta segunda-feira (1º), em Belo Horizonte. O encontro reuniu lideranças para discutir os desafios estratégicos do setor.
Durante o painel, Adriana Maugeri, presidente da Amif, alertou para a vulnerabilidade do agronegócio brasileiro diante das tensões geopolíticas internacionais. Segundo ela, mais de 80% dos fertilizantes utilizados no setor vêm do exterior, tornando a produção agrícola dependente de mercados estratégicos e sujeita a oscilações de preços, conflitos e restrições comerciais.
A executiva destacou que a questão vai além da disponibilidade de insumos e está diretamente ligada à segurança alimentar e à competitividade do Brasil como um dos maiores produtores e exportadores de alimentos do mundo. Para ela, apesar dos avanços promovidos pelo Plano Nacional de Fertilizantes, o programa sozinho não será capaz de resolver todos os desafios enfrentados pelo setor.
Carga tributária e entraves no licenciamento ambiental
Outro ponto levantado por Adriana foi a elevada carga tributária incidente sobre a cadeia produtiva, fator que, segundo ela, dificulta investimentos e reduz a competitividade da produção nacional de fertilizantes. A presidente da Amif defendeu políticas estruturantes e de longo prazo para ampliar a produção doméstica e reduzir a dependência externa.
O tema também foi abordado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que ressaltou que a redução dessa dependência passa pela ampliação da produção nacional e pelo avanço de projetos que enfrentam entraves regulatórios e ambientais. Segundo o senador, há áreas com potencial para exploração de matérias-primas destinadas à fabricação de fertilizantes, mas que esbarram em processos de licenciamento considerados complexos e demorados.
Ele defendeu a modernização dos procedimentos e a busca por parcerias internacionais para transferência de tecnologia, permitindo aumentar a produção com menor impacto ambiental. Flávio Bolsonaro também destacou que novas fontes de fertilizantes e tecnologias mais sustentáveis já estão disponíveis no mercado, o que pode contribuir para reduzir a dependência externa e ampliar a segurança de abastecimento do agronegócio brasileiro.
Protagonismo do setor florestal mineiro
Além dos fertilizantes, os participantes discutiram os desafios impostos pelas exigências ambientais e de rastreabilidade dos mercados internacionais. Adriana Maugeri afirmou que o setor florestal brasileiro muitas vezes é associado ao desmatamento, apesar de manter elevados índices de preservação ambiental. Segundo ela, é necessário que as regras de rastreabilidade reconheçam as características da produção nacional e valorizem as boas práticas já adotadas pelos produtores brasileiros.
A executiva destacou ainda que o Brasil possui vantagens competitivas importantes, como a elevada produtividade do eucalipto, que supera a de diversos países concorrentes. De acordo com ela, o cenário geopolítico atual abre oportunidades para acordos de longo prazo, transferência de tecnologia e agregação de valor à produção nacional, reduzindo a dependência da exportação de commodities.
O secretário de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Minas Gerais, Thales Almeida, destacou a importância econômica da atividade florestal para o estado. Segundo ele, o setor florestal representa atualmente a maior cultura agrícola de Minas Gerais e vem ampliando sua relevância no comércio exterior. O estado lidera o ranking nacional de florestas plantadas, com cerca de 2,3 milhões de hectares, o equivalente a 24% de toda a base florestal brasileira.
“O agro precisa ser definido como um tema de segurança alimentar e energética”, afirmou Adriana Maugeri. Segundo ela, a biomassa proveniente de florestas renováveis coloca o Brasil em posição privilegiada diante da demanda mundial por fontes de energia mais sustentáveis.
Segurança rural e proteção ao produtor
Outro tema abordado durante o painel foi a necessidade de fortalecer mecanismos de proteção ao produtor rural. O deputado federal Domingos Sávio (PL-MG) defendeu a ampliação do seguro rural como ferramenta para aumentar a segurança no campo. Segundo ele, a previsibilidade proporcionada pelo seguro é fundamental em um momento de custos elevados, juros altos e maior exposição a riscos climáticos e de mercado.

Fonte: Cnnbrasil