Plataforma de petróleo operando no litoral brasileiro. Plataforma de petróleo operando no litoral brasileiro.

FGV Ibre projeta arrecadação de R$ 104 bi com alta do petróleo

Alta do preço do petróleo pode gerar R$ 104 bilhões extras para o governo, mas traz riscos inflacionários e limita cortes na taxa Selic, aponta FGV Ibre.

A valorização do petróleo no mercado internacional pode gerar um bônus fiscal de R$ 104 bilhões aos cofres públicos brasileiros. Cálculos do FGV Ibre indicam que esse montante seria atingido caso o preço do barril tipo Brent se estabilize em torno de US$ 100 até o final do ano corrente.

Em contrapartida, a alta da commodity pressiona custos de fertilizantes e combustíveis, essenciais para a cadeia produtiva nacional. Manoel Pires, pesquisador associado e coordenador do Observatório de política Fiscal do FGV Ibre, detalhou a mudança estrutural do setor. “O Brasil saiu de uma situação em que ele não era um grande produtor de petróleo e se tornou um grande produtor”, afirmou Pires.

Segundo o especialista, a valorização do barril aumenta o valor das exportações, melhora o saldo das contas externas e eleva a arrecadação da União de forma direta. Contudo, essa dinâmica gera efeitos colaterais na economia real devido à dependência do combustível como insumo.

Risco inflacionário e gestão de preços pelo governo

Pires ressaltou que o aumento dos preços possui um viés redistributivo negativo. “De um lado, você tem o benefício, que é a arrecadação governamental; do outro lado, você tem esse risco inflacionário”, pontuou o pesquisador sobre o impacto nos preços ao consumidor.

O governo tem buscado equilibrar essa balança utilizando receitas extraordinárias para subvenções no preço da gasolina e do diesel. Manoel Pires observou que, no momento da análise, a subvenção de R$ 0,89 por litro dependia da implementação de medida provisória, o que ainda deixava uma defasagem nos valores da Petrobras.

De acordo com o coordenador do observatório, após a efetivação das medidas, a estatal provavelmente precisará realizar ajustes adicionais nos preços dos combustíveis para reduzir a defasagem remanescente. O objetivo é evitar prejuízos acentuados causados por uma política de preços defasada em relação ao mercado internacional.

Impacto na Selic e desafios para o Banco Central

O levantamento do FGV Ibre aponta que o repasse dos aumentos dos derivados de petróleo pode elevar o IPCA em 0,9 ponto percentual. Esse cenário restringe a margem de manobra do Banco Central para reduzir a taxa Selic no curto prazo.

“O espaço para se cortar juros ficou realmente um pouco menor”, admitiu Pires. Para o economista, diante do atual quadro de incertezas, é prudente que a autoridade monetária adote uma postura cautelosa. Ele reforçou que as medidas compensatórias do governo foram essenciais para evitar uma pressão inflacionária ainda maior, o que alteraria completamente o debate monetário vigente.

Transição energética e desafios estruturais do país

Sobre a possibilidade de o Brasil adiar investimentos em energia limpa devido à receita vinda do petróleo, o pesquisador afastou receios imediatos. Pires destacou que o consumo de derivados não cresceu expressivamente, impulsionado pela substituição gradual por biocombustíveis e pelo avanço do hidrogênio verde.

“O sucesso dessas diversificações energéticas está beneficiando muito o Brasil, inclusive em situações como essa”, afirmou. Pires concluiu ressaltando que o desafio fiscal brasileiro permanece estrutural e exigirá uma agenda mais efetiva de controle das contas públicas após o encerramento do ciclo eleitoral, com foco principal a partir de 2027.

Fonte: Cnnbrasil