O governo da Bélgica assinou nesta quinta-feira uma carta de intenções para adquirir todas as operações nucleares da Electrabel, subsidiária da Engie, no país. A medida representa uma reversão histórica da legislação de abandono da energia nuclear adotada no início dos anos 2000, motivada por preocupações com a segurança das instalações.

O primeiro-ministro belga, Bart De Wever, afirmou que o objetivo central da iniciativa é reduzir a dependência do país em relação aos combustíveis fósseis e garantir maior autonomia na gestão do suprimento energético nacional.
Sete reatores e gestão de resíduos mudam para controle estatal
As tratativas incluem a transferência total dos sete reatores operados pela Engie, o que engloba a absorção de funcionários, ativos e passivos, como a complexa gestão de resíduos radioativos. “Este governo escolhe energia segura, acessível e sustentável”, declarou De Wever sobre o plano. “Com menos dependência de importações fósseis e mais controle sobre nossa própria oferta.”
Atualmente, apenas dois dos sete reatores estão em operação gerando eletricidade para a rede nacional. O acordo prevê a suspensão imediata do processo de desmantelamento das demais unidades, que estava previsto anteriormente. A decisão ocorre após a Bélgica ter abandonado, no ano passado, o plano de desativação nuclear que vigorava há duas décadas.
Em 2003, o Senado belga aprovou uma lei que proibia a construção de novas usinas nucleares e limitava a vida útil das existentes a 40 anos. Dados da Agência Internacional de Energia indicam que a participação da energia nuclear na matriz elétrica belga caiu de cerca de 60% no início dos anos 2000 para aproximadamente 40% nos dias atuais.
Crise energética global força mudança na estratégia europeia
Nos últimos dois meses, o conflito no Irã provocou uma nova escalada nos preços globais de energia, agravando um cenário que já era desafiador após a transição europeia para longe dos combustíveis fósseis russos. O bloqueio no Estreito de Hormuz restringiu a oferta, elevando a inflação energética na Bélgica em **10,6% apenas no mês de abril**.
Diante da instabilidade, a Europa busca revitalizar a produção doméstica de energia nuclear para estabilizar seus mercados. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, classificou recentemente o afastamento do continente em relação à energia nuclear como um “erro estratégico”.
Pesquisa realizada pela União Europeia em 2024 aponta que 56% dos cidadãos do bloco acreditam que a energia nuclear terá um impacto positivo em suas vidas nas próximas duas décadas. Em contraste, 35% dos entrevistados mantêm uma visão negativa sobre a tecnologia.
Fonte: Dw