A relação entre futebol e política no Brasil ganha contornos específicos a cada ciclo de Copa do Mundo. Recentemente, após a convocação de Neymar por Carlo Ancelotti, o Partido Liberal (PL) utilizou inteligência artificial para associar a imagem do jogador à do senador Flávio Bolsonaro. O senador também compartilhou registros com o atleta, embora Neymar não tenha se manifestado sobre a peça publicitária.
“Hoje em dia os atletas são muito mais do que jogadores. Eles também são celebridades. E o Neymar é, sem dúvida, o grande atleta da geração brasileira”, afirma Bruna Barenco, mestre e doutoranda em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). O presidente Luiz Inácio Lula da Silva também comentou o cenário atual, pontuando que, embora o Brasil tenha chances de conquistar o hexa, o país vive uma fase sem grandes ídolos no futebol.
“Lamentavelmente, a gente não está em uma fase de produção de tantos gênios do futebol como tivemos nas seleções de 58, 62 e 70. A seleção pode ser campeã do mundo, mas o problema é que nossa seleção não tem mais nenhum ídolo”, afirmou Lula durante o programa Sem Censura, da TV Brasil. Segundo Barenco, o calendário eleitoral brasileiro, que coincide com os anos de Copa desde 1994, intensifica o impacto político do esporte.
A Copa de 1958 marca o projeto de identidade nacional de JK
Em 1958, sob a gestão de Juscelino Kubitschek, o Brasil vivia os “Anos Dourados” com foco na industrialização e na construção de Brasília. A conquista inédita na Suécia, com Pelé e Garrincha, foi celebrada como um marco da identidade nacional. JK recebeu os atletas no Palácio do Catete, utilizando o feito para reforçar a ideia de miscigenação e superar o chamado “Complexo de Vira-lata”, termo cunhado por Nelson Rodrigues após 1950.
Interferência política marca as Copas de 1962 e 1970
Na Copa de 1962, o governo de João Goulart atuou diretamente para garantir a presença de Garrincha na final. “Dirigentes brasileiros contaram com o apoio de Tancredo Neves, então primeiro-ministro do país, para enviar uma carta ao presidente do Chile pedindo a absolvição do jogador. Garrincha acabou liberado para disputar a final, o que mostra a dimensão e a importância que a conquista de uma Copa do Mundo tinha para o Brasil”, lembra Barenco.
Já durante a ditadura militar, o uso do futebol como propaganda atingiu seu ápice em 1970. O presidente Emílio Garrastazu Médici utilizou a vitória para promover o ufanismo nacionalista em meio ao “Milagre Econômico”. A música “Pra Frente, Brasil” tornou-se símbolo do período. Contudo, o historiador Carlos Fico, da UFRJ, pondera: “A música tinha características de ‘música-chiclete’ e de música patriótica, quase marcial, como um hino. Com o desempenho da seleção em 1970, se tornou um grande sucesso. Isso não significa que a população tenha embarcado, necessariamente, na ideia de unidade nacional pretendida pela propaganda oficial”.
Demitido por ironia, João Saldanha enfrentou o regime em 1970
A relação entre o governo e a comissão técnica também foi tensa. A 72 dias da estreia em 1970, o técnico João Saldanha foi demitido por João Havelange. O motivo teria sido a recusa de Saldanha em aceitar a pressão de Médici para convocar Dadá Maravilha. O treinador ironizou a situação: “Ele escala o ministério, eu escalo a seleção”.
Estabilização econômica e o futebol na era do Plano Real
Em 1994, o contexto era de estabilização econômica com o Plano Real. “Em 1994, o futebol começava a tentar se afastar da política e criar essa imagem de que o esporte existia separado dela. Era um contexto completamente diferente das Copas anteriores”, comenta Barenco. Já em 2002, a conquista do pentacampeonato coincidiu com a transição política que levaria Lula à presidência. Para o pesquisador Carlos Fico, “só um governo pouco habilidoso não se aproveitaria desse tipo de eventual conquista”.
Fonte: G1